Ribeirão Bom Retiro: 90 anos de uma obra que transformou Blumenau

Iniciada em 1936, a canalização foi marcada por paralisações, polêmicas e questionamentos sobre os custos, atravessou diferentes etapas e reconstruções e só foi concluída mais de três décadas depois, passando a conduzir as águas do Ribeirão Bom Retiro por uma galeria subterrânea até o Rio Itajaí-Açu

Reportagem Especial: Giovani Vitória | Jornalista | Editor do VIVER BOM RETIRO, o canal de comunicação do Bairro Bom Retiro

Quem circula pelo Centro de Blumenau talvez nem imagine que, vários metros sob as ruas Floriano Peixoto, Engenheiro Rodolfo Ferraz, Luiz de Freitas Melro, antiga Rua Maranhão, Nereu Ramos, Sete de Setembro, XV de Novembro e Avenida Beira-Rio, continua correndo o Ribeirão Bom Retiro.

Antes de desaparecer sob o concreto, o ribeirão cruzava abertamente parte da região central até desembocar no Rio Itajaí-Açu. Sua canalização ajudou a modificar profundamente a paisagem urbana de Blumenau, permitindo aterros, abertura e prolongamento de ruas e a ocupação de áreas que anteriormente pertenciam ao seu vale.

Documentos históricos mostram, porém, que não existiu uma única obra de canalização do Ribeirão Bom Retiro. O sistema atual é resultado de intervenções realizadas em diferentes épocas, iniciadas há cerca de 90 anos.

Onde começa 

A canalização do Ribeirão Bom Retiro começa nas proximidades da Rua Floriano Peixoto, nos fundos do estacionamento situado ao lado do Centro Clínico Pradi. Nesse trecho, chama a atenção a estrutura em alvenaria de tijolos maciços, executada em forma de abóbada, com as peças assentadas em arco. É justamente essa configuração arqueada, semelhante à de um túnel, que ajuda a explicar a associação da estrutura à antiga lenda dos chamados “túneis secretos” de Blumenau. É o mesmo tipo de engenharia revelada durante as obras de implantação da rede de esgoto na rua do Teatro Carlos Gomes que causou “frisson” na cidade e novas teoria a respeito do tema.

A partir desse ponto, o ribeirão segue canalizado, cruza a Rua Floriano Peixoto e avança em direção à Rua Engenheiro Rodolfo Ferraz. No entanto, até o momento, nossa pesquisa não permitiu determinar com segurança se a canalização manteve integralmente o leito original do ribeirão ou se houve desvios em algum ponto do percurso. Também não foi possível estabelecer com precisão por onde a galeria cruza a Rua Luiz de Freitas Melro, antiga Rua Maranhão, antes de alcançar a região da Rua Nereu Ramos.

A obra começa em 1936

Uma das referências documentais mais precisas aparece em janeiro de 1936. O jornal A Gazeta noticiou que estava sendo realizada em Blumenau a canalização do Ribeirão Bom Retiro no trecho compreendido entre a Rua 7 de Setembro e o Rio Itajaí-Açu.

Segundo a reportagem, a Prefeitura havia contratado o engenheiro-arquiteto Gustav Bleicker e as obras começaram em 21 de janeiro de 1936, seguindo plantas aprovadas por uma comissão de engenheiros.

Outras fontes históricas confirmam que a intervenção atravessava a Rua XV de Novembro justamente na região onde posteriormente surgiria a Rua Nereu Ramos.

A obra, portanto, não tinha apenas função hidráulica. Ela começaria a redesenhar uma parte importante do Centro de Blumenau.

Problemas, atrasos e enchentes

A canalização não foi uma obra simples. Relatórios da Prefeitura mostram que, em 1938, o então prefeito José Ferreira da Silva registrava dificuldades técnicas e financeiras na execução. Houve inclusive questionamentos relacionados ao trabalho do empreiteiro, levando à contratação de engenheiros para avaliar as estruturas já construídas.

Em 1939, os serviços prosseguiam, mas as enchentes do Rio Itajaí-Açu e de seus afluentes provocaram novas paralisações. Naquele ano, o nível do Itajaí alcançou a marca de 11,45 metros acima do nível.

A obra que havia começado em 1936, portanto, atravessou diferentes administrações e enfrentou problemas antes de ser concluída.

Nasce a Rua Nereu Ramos

A canalização produziria uma transformação urbana. Com o ribeirão coberto e o antigo vale aterrado, surgiu espaço para a implantação da Rua Nereu Ramos e para a consolidação da Praça Dr. Blumenau.

Publicação histórica sobre José Ferreira da Silva atribui à sua administração a canalização do Ribeirão Bom Retiro e a consequente abertura da atual Rua Nereu Ramos, no trecho entre a Rua XV de Novembro e a Rua 7 de Setembro.

Ou seja: parte do Centro atual literalmente foi construída sobre o antigo curso do Ribeirão Bom Retiro.

Concreto e grandes tubos metálicos

A primeira canalização também não foi construída utilizando uma única técnica. Em 1957, o próprio José Ferreira da Silva explicou que o sistema era formado, em parte, por bueiros de concreto e, em outra parte, por grandes tubos metálicos corrugados do tipo Armco, com aproximadamente dois metros de diâmetro.

Segundo seu relato, uma parte do bueiro de concreto havia cedido sob a pressão do aterro, possivelmente por deficiência no estaqueamento das fundações.

Engenheiros avaliaram a estrutura e concluíram que, apesar do deslocamento, ainda havia passagem suficiente para as águas. Para concluir aquela etapa da canalização, foram utilizados 75 metros de tubos Armco.

Décadas depois, fotografias das obras na desembocadura do Ribeirão Bom Retiro ainda registrariam a presença dessas grandes estruturas metálicas.

Nos anos 1950, a preocupação volta

O sistema começou a apresentar sinais de que necessitava de uma solução mais ampla. No relato publicado em 1957, José Ferreira da Silva dizia continuar preocupado com as falhas existentes no antigo bueiro de concreto e defendia uma solução definitiva.

Na mesma década, estudos e discussões técnicas passaram a tratar novamente da drenagem e da regularização do Ribeirão Bom Retiro. A questão chegaria ao Governo Federal e uma nova e grande obra começa a ser articulada.

No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, documentos passam a mencionar novamente uma obra de grande porte no Ribeirão Bom Retiro. Em 1960, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina chegou a designar uma comissão de deputados para tratar, em Brasília e no Rio de Janeiro, da liberação de verbas para a construção do Canal Bom Retiro, em Blumenau.

Isso demonstra que não se tratava simplesmente de pequenos reparos na canalização existente. Havia uma nova intervenção sendo articulada.

No final de 1961, dotações do Governo Federal destinadas à regularização e canalização do Ribeirão Bom Retiro chegaram a ser liberadas administrativamente, mas acabaram inscritas em “restos a pagar”.

Em fevereiro de 1962, o assunto chegou ao Congresso Nacional. O deputado Antônio Carlos Konder Reis informou que a Prefeitura preparava os processos necessários para a celebração dos convênios e recebimento dos recursos.

No projeto do orçamento federal para 1963 aparece uma dotação específica de Cr$ 17 milhões. Não é possível, porém, afirmar que o valor tenha representado o custo total da intervenção. Na pesquisa da reportagem do VIVER BOM RETIRO, não foi localizado o convênio original, eventuais termos aditivos e comprovação dos pagamentos realizados. Há indícios de que a execução ocorreu em etapas e recebeu recursos em mais de um exercício.

Esse valor contemplaria serviços de retificação, saneamento, canalização e regularização do Ribeirão Bom Retiro. Em valores atuais, corrigidos pelo IGP-DI, a quantia equivaleria a cerca de R$ 2,3 milhões.

1964: aparece o “novo canal”

Uma fotografia pertencente ao Relatório dos Negócios Administrativos do Município de Blumenau de 1964 é uma das evidências mais importantes. A imagem registra obras de defesa da margem direita do Rio Itajaí-Açu, nos fundos da Praça Dr. Blumenau.

A fotografia é particularmente reveladora porque mostra, no mesmo local, duas gerações da canalização. De um lado estava o sistema antigo, construído parcialmente com grandes tubos metálicos. Do outro, a nova estrutura de concreto.

Fotografias históricas da região da atual Avenida Beira-Rio também registram grandes escavações e tubulações expostas justamente nas proximidades da desembocadura do ribeirão.

Canalização e Avenida Beira-Rio

A nova intervenção ocorreu simultaneamente às grandes obras de proteção da margem direita do Rio Itajaí-Açu e à implantação da Avenida Beira-Rio.

Isso explica por que fotografias daquele período mostram enormes movimentações de terra, equipamentos pesados, aterros e estruturas da canalização expostas nas proximidades da Praça Dr. Blumenau. As duas obras eram distintas administrativamente, mas se encontravam fisicamente na desembocadura do Ribeirão Bom Retiro.

Documentação posterior confirma que, em 1965, existiam convênios entre o Governo Federal e a Prefeitura de Blumenau relacionados tanto às obras de defesa do Itajaí-Açu quanto à canalização do Ribeirão Bom Retiro.

Uma obra que mudou a cidade

A história da canalização ajuda também a explicar a Blumenau que conhecemos atualmente. Ao esconder o curso d’água e aterrar partes de seu vale, diferentes administrações criaram novas áreas para ruas, praças, edificações e expansão urbana.

A Rua Nereu Ramos é talvez o exemplo mais evidente dessa transformação. Mais tarde, novas intervenções também estiveram relacionadas à expansão viária em direção à Rua Engenheiro Rodolfo Ferraz e à região do Jardim Blumenau e Bom Retiro.

Por baixo dessa cidade construída ao longo de décadas, entretanto, o Ribeirão Bom Retiro continua seguindo seu caminho em direção ao Itajaí-Açu.

Um projeto de 1978 que ficou no papel

Em 1978, entre projetos de drenagem elaborados pelo Escritório Saturnino de Brito, aparecia uma nova galeria para o Ribeirão Bom Retiro, com 310 metros, prevista entre as ruas Cuiabá e Marechal Floriano Peixoto. O custo estimado era de Cr$ 2,910 milhões. A obra, infelizmente, não foi executada.

Uma história ainda escondida debaixo da cidade

Quase nove décadas depois do início das primeiras grandes obras, ainda existem lacunas nessa história. O VIVER BOM RETIRO continua pesquisando documentos do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, jornais da época, relatórios municipais, Diário Oficial e registros do Congresso Nacional para descobrir o custo final das diferentes etapas, a extensão das galerias construídas e os detalhes dos convênios firmados entre Blumenau e o Governo Federal.

Mas a documentação já encontrada permite uma conclusão importante: a canalização do Ribeirão Bom Retiro que existe sob Blumenau não nasceu de uma única obra. Ela é resultado de sucessivas intervenções realizadas ao longo de décadas.

Sob ruas movimentadas do Centro e do Bom Retiro permanece, portanto, uma parte pouco conhecida da história de Blumenau e um ribeirão que desapareceu da paisagem, mas nunca deixou de correr.

A canalização que reapareceu décadas depois

Décadas depois da canalização do Ribeirão Bom Retiro, a obra voltou a chamar a atenção durante a implantação da rede de esgoto em Blumenau. Em 2015, uma intervenção na região da Rua Nereu Ramos, no entroncamento com a Rua Engenheiro Rodolfo Ferraz, exigiu uma investigação sobre o que havia sob o solo. Na época, praticamente não havia documentação facilmente disponível sobre o traçado da antiga canalização. Uma das principais referências encontradas foi uma foto-legenda publicada pelo extinto Jornal A Nação, complementada pelo trabalho de pesquisa e pelo suporte da historiadora Sueli Petry.

A imagem histórica é particularmente importante porque registra a obra de canalização do Ribeirão Bom Retiro e informa que o trecho entre as ruas Maranhão, hoje Luiz de Freitas Melro, e a Floriano Peixoto seria posteriormente aterrado. A própria legenda descreve dois prolongamentos viários previstos sobre a área: o primeiro, da Rua Nereu Ramos, e o segundo, da Rua Engenheiro Rodolfo Ferraz, fazendo a ligação desta com a Rua Floriano Peixoto. Ou seja, a fotografia não documenta apenas a canalização: ajuda a compreender como o curso do antigo ribeirão foi incorporado à expansão da malha urbana.

Essa informação histórica ganhou importância prática em 2015. Durante as obras de esgotamento sanitário, a existência da antiga estrutura subterrânea criou um desafio de engenharia justamente na região da Nereu Ramos com a Engenheiro Rodolfo Ferraz.

Para possibilitar a passagem e a implantação da nova rede, foi necessária a construção de um poço profundo, como mostram as fotografias realizadas durante a intervenção. A obra moderna acabou, assim, revelando uma estrutura executada muitas décadas antes e obrigando os técnicos a conhecer melhor a história da ocupação daquela parte da cidade.

O episódio também demonstra o valor documental daquela antiga fotografia do A Nação. Uma imagem preservada como registro da transformação urbana do Bom Retiro acabou fornecendo, décadas mais tarde, pistas sobre onde passava o Ribeirão Bom Retiro canalizado e posteriormente encoberto pela cidade. Nesse ponto, história, memória e engenharia acabaram se encontrando debaixo das ruas de Blumenau.

 

CRONOLOGIA DA CANALIZAÇÃO DO RIBEIRÃO BOM RETIRO

1935 — Durante a administração de Germano Beduschi começam as articulações para a canalização do Ribeirão Bom Retiro.

21 de janeiro de 1936 — Início documentado das obras de canalização entre a Rua 7 de Setembro e o Rio Itajaí-Açu. O trabalho é executado sob responsabilidade do engenheiro-arquiteto Gustav Bleicker.

1938 — Relatório municipal registra problemas técnicos, financeiros e contratuais na execução da canalização. Engenheiros são chamados para avaliar a estrutura.

1939 — As obras continuam, mas sofrem paralisações provocadas pelas cheias do Itajaí-Açu e seus afluentes.

Início dos anos 1940 — A etapa é concluída durante a administração de José Ferreira da Silva. Parte da canalização utiliza bueiro de concreto e outra parte grandes tubos metálicos Armco.

Década de 1940 — O aterro sobre a canalização transforma a região central e contribui para a formação da Rua Nereu Ramos e da Praça Dr. Blumenau.

1954 — José Ferreira da Silva relata ter alertado Hercílio Deeke para problemas existentes em parte da canalização.

1957 — Documento histórico descreve a canalização como composta de bueiro de concreto e tubos Armco de aproximadamente dois metros de diâmetro. O relato informa que 75 metros de tubos Armco haviam sido utilizados na conclusão de uma etapa anterior e aponta a necessidade de solução definitiva para problemas estruturais.

1959–1960 — Uma nova e maior intervenção passa a ser discutida. Estudos e articulações políticas buscam recursos federais.

20 de julho de 1960 — A Assembleia Legislativa de Santa Catarina designa comissão para tratar com o Governo Federal da “liberação de verbas para a construção do canal Bom Retiro, em Blumenau”.

Final de 1961 — Recursos federais destinados à regularização e canalização são liberados administrativamente, mas acabam inscritos em restos a pagar.

Fevereiro de 1962 — No Congresso Nacional, Antônio Carlos Konder Reis cobra o pagamento dos recursos e informa que estavam sendo preparados processos para convênios com a Prefeitura de Blumenau.

1962/1963 — O orçamento federal prevê Cr$ 17 milhões para a “Regularização do Ribeirão Bom Retiro, na cidade de Blumenau, em convênio com a Prefeitura”.

1963–1965 — Período provável da principal execução da nova intervenção de concreto, simultaneamente às grandes obras de defesa da margem direita do Itajaí-Açu e implantação da Beira-Rio.

1964 — Relatório municipal registra fotograficamente a “desembocadura do novo canal (de concreto)” do Ribeirão Bom Retiro e, ao lado, o “antigo tubo Armco”.

1965 — Documentação federal confirma a existência de convênios com a Prefeitura de Blumenau relacionados às obras de defesa do Itajaí-Açu e à canalização do Ribeirão Bom Retiro.

Década de 1970 — O ribeirão já aparece amplamente ocultado pela urbanização e pelas galerias subterrâneas.

1978 — É projetada uma nova galeria de 310 metros entre as ruas Cuiabá e Marechal Floriano Peixoto, estimada em Cr$ 2,910 milhões. As informações disponíveis indicam que o projeto não chegou a ser executado.

Hoje — O Ribeirão Bom Retiro continua percorrendo subterraneamente parte do bairro e da região central até sua desembocadura no Rio Itajaí-Açu, na Avenida Beira-Rio.

Fotos tratadas e colorizadas com suporte de inteligência artificial. Acervos: Família Caropreso, Viver Bom Retiro, Arquivo Histórico José Ferreira da Silva e guardados de Bruno Kadletz

 

Fotos tratadas com IA

 

As foto originais da época

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